sábado, 24 de dezembro de 2011

O gago ao quadrado



A tripulação de bordo da Kombi do Resgate Social é composta por três fiscais e um motorista em cada turno. Foram escalados quatro turnos de oito horas. Num desses turnos faltaram dois fiscais e o motorista, eu consequentemente me habilitei a dirigir durante a ronda vespertina. A certa altura avistei um andarilho nos acenando, estacionei a Kombi no acostamento entre a Avenida Alvim Bauer e a Atlântica. O fiscal que me acompanhava na ronda era gago e falava ao celular com alguém aparentemente importante.
Desembarquei da Kombi e, para minha surpresa o cidadão gaguejava ininterruptamente. Acabei chamando o fiscal Dão, ingenuamente acreditando que um entenderia o outro com mais facilidade. Criei um belo problema. O andarilho gago acabou achando que Dão estava debochando e o imitando e, por mais que o fiscal tentasse explicar o gago não parava de discutir. Foi aí que o fiscal, sem mais alternativa, desceu da Kombi e perguntou o que acontecia.
O andarilho olhou para Dão e proferiu:
-- Vo-vo-vo-cê es-es-tá me arre-re-re-remen-dando?
Na tentativa de ajudar, acabei intervindo:
-- Não! Não! Ele não está lhes arremendando, pois ele também é gago.
Confesso, fui infeliz ao falar desse jeito. O lazarento do gaguinho ficou bravo comigo também. O fiscal começou a enfurecer-se:
-- Ga-ga-gu do ca-ca-cara...
E eu o interpelei antes que a coisa ficasse pior.
-- Dão, por favor, se acalme. Entendo vocês dois, mas você tem que me ajudar nessa.
A verdade é que chamar o Dão, gago como era, para ajudar no caso do andarilho era um erro já que os dois eram gagos. Mas quis pregar uma peça nele pela intimidade que tínhamos na equipe da migração, sem esquecer que fomos colegas políticos durante alguns mandatos. Dão já havia sido vereador por duas vezes consecutivas.
Bem, voltando ao caso da abordagem, enquanto eu tentava acalmar os ânimos, o gago avistou uma viatura da polícia e acenou aos policiais que se aproximaram da Kombi. Os policiais nos cumprimentaram, expliquei o ocorrido, sobre o andarilho estar embriagado e que o estávamos ajudando. O gago retrucou, dizendo que estava tencionado a ir a Joinville e que Dão, nosso fiscal o estava imitando.
Os policiais explicaram que Dão tinha o mesmo problema de dicção que ele, e que eramos as pessoas certas a ajuda-lo. Foi então que os dois gagos enfim se acertaram, selando trégua com um aperto de mão e agilizando para que seguíssemos rumo à rodoviária. Consultamos o Ciasc a fim de saber se o homem era mesmo de Joinville, e o embarcamos rumo a sua cidade.
Nossa rotina a bordo da Kombi é sempre assim: prestar um serviço difícil, complexo, que exige paciência e compreensão, mas que ao mesmo nos satisfaz e diverte. Até mesmo pelo fato de nos espelharmos, muitas vezes, nos casos que encontramos. Todos sabem, já fui alcoólatra e morador de rua e hoje, humildemente faço parte da direção do Departamento de Resgate Social. Faço o possível para que todo ser humano que encontramos na rua seja tratado com o devido respeito e compaixão. 


Este é um fragmento do Diário de Bordo da Kombi, novo livro de Paulo Roberto de Souza que será lançado ainda no início deste ano. 

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