quarta-feira, 21 de março de 2012

Folhetim 2 - O mendigo e a Psicóloga



"...Pôs-se a pensar nos bons e velhos tempos em que foi mecânico de aeronaves, da vida de luxo que levara em hotéis mundo afora, sempre acompanhado de lindas aeromoças ou quando frequentava cabarés de luxo com colegas de bordo, que os aeronautas também frequentavam. Entre um trago e outro acabou caindo em tristeza, sem acreditar estar vivendo naquelas condições. Já podre de bêbado novamente, fechou a porta da lixeira e foi tirar mais uma soneca para ver se passava a amargura que sentia no peito, mesmo porque não tinha nada a fazer naquela manhã cinzenta de segunda-feira.
Durante o pesado sono, teve pesadelos de que diversas víboras entravam pelas frestas da porta da lixeira, vindo vagarosamente em direção a seu corpo. Acabou gritando e acordando, livrando-se da terrível trama que se armava contra ele dentro do pesadelo. Levantou e, com medo de ficar dentro da lixeira, decidiu dar uma volta, mesmo com a fina chuva que caía nos arredores do cemitério. Saiu para vagar pela cidade ainda zonzo e, num dos semáforos pelos quais passou, acabou sendo atropelado por um fusca 74 de um agricultor.
O motorista parou o carro uns vinte metros à frente e voltou andando para ver o estrago que havia feito no pobre homem sem noção. Chegando bem próximo, o caipira falou bem alto:
-- Tá tudo bem aí, meu véio?
Hildebrando olhou para o condutor, pronto a soltar um monte de impropérios, mas acabou desistindo ao perceber que o motorista era um pobre caipira que aparentava ser uma pessoa de bem. Então devolver ao caipira:
-- Ô véio, chama aí uma ambulância.
E assim foi feito, chamaram o socorro e o atropelado foi conduzido até o hospital. Após os procedimentos, Hildebrando foi encaminhado para o quarto número 104. O médico, após suturar os cortes do paciente, pediu aos enfermeiros que aplicassem glicose e soro e o deixassem em observação por, no mínimo, dois dias. Hildebrando passou a noite bem, reagiu bem à medicação e claro, estava contente por estar poder descansar em uma cama limpa e cheirosinha, com travesseiro e tudo o mais que uma pessoa de bem tem direito.
Foi acordado pelas enfermeiras logo cedo, com um simpático “Olá”. As enfermeiras comunicaram que as roupas de cama precisavam ser trocadas e perguntaram se ele gostaria de um banho. Como também fazia algum tempo que ele não se lavava, aceitou imediatamente a proposta e, auxiliado pelas enfermeiras, acabou tomando banho no pequeno box. Seu companheiro de quarto estava de alta e lhe ofereceu desodorante e um livro e, como iria ficar sozinho no leito, um livro seria benvindo.  O título na capa era algo como De Mendigo a Milionário, porém é difícil confirmar, já faz muitos anos.
Pois bem, após o café o paciente começou a ler o livro. Enquanto ainda lia, foi comunicado de que a psicóloga o visitaria, a fim de pegar alguns dados. Como não tinha família ou moradia fixa, ele acabou relaxando e voltando à leitura. Exatamente as 09h30min, a psicóloga entrou em seu quarto e ele tão concentrado no livro nem a percebeu. Foi quando ouviu uma voz feminina, ao longe dizendo “moço, moço”. Ele tirou os olhos das páginas e viu a sua frente uma mulher alta, linda e com voz meiga e suava, lhe desejando um cordial “bom dia”.
Ao ser questionado pela psicóloga sobre onde morava..."




Este é um fragmento do livro Diário de bordo da Kombi, que será lançado em breve.

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