"...Pôs-se a pensar
nos bons e velhos tempos em que foi mecânico de aeronaves, da vida de luxo que
levara em hotéis mundo afora, sempre acompanhado de lindas aeromoças ou quando
frequentava cabarés de luxo com colegas de bordo, que os aeronautas também
frequentavam. Entre um trago e outro acabou caindo em tristeza, sem acreditar
estar vivendo naquelas condições. Já podre de bêbado novamente, fechou a porta
da lixeira e foi tirar mais uma soneca para ver se passava a amargura que
sentia no peito, mesmo porque não tinha nada a fazer naquela manhã cinzenta de
segunda-feira.
Durante o pesado
sono, teve pesadelos de que diversas víboras entravam pelas frestas da porta da
lixeira, vindo vagarosamente em direção a seu corpo. Acabou gritando e acordando,
livrando-se da terrível trama que se armava contra ele dentro do pesadelo.
Levantou e, com medo de ficar dentro da lixeira, decidiu dar uma volta, mesmo
com a fina chuva que caía nos arredores do cemitério. Saiu para vagar pela
cidade ainda zonzo e, num dos semáforos pelos quais passou, acabou sendo
atropelado por um fusca 74 de um agricultor.
O motorista parou
o carro uns vinte metros à frente e voltou andando para ver o estrago que havia
feito no pobre homem sem noção. Chegando bem próximo, o caipira falou bem alto:
-- Tá tudo bem
aí, meu véio?
Hildebrando olhou
para o condutor, pronto a soltar um monte de impropérios, mas acabou desistindo
ao perceber que o motorista era um pobre caipira que aparentava ser uma pessoa
de bem. Então devolver ao caipira:
-- Ô véio, chama
aí uma ambulância.
E assim foi
feito, chamaram o socorro e o atropelado foi conduzido até o hospital. Após os
procedimentos, Hildebrando foi encaminhado para o quarto número 104. O médico,
após suturar os cortes do paciente, pediu aos enfermeiros que aplicassem
glicose e soro e o deixassem em observação por, no mínimo, dois dias.
Hildebrando passou a noite bem, reagiu bem à medicação e claro, estava contente
por estar poder descansar em uma cama limpa e cheirosinha, com travesseiro e
tudo o mais que uma pessoa de bem tem direito.
Foi acordado
pelas enfermeiras logo cedo, com um simpático “Olá”. As enfermeiras comunicaram
que as roupas de cama precisavam ser trocadas e perguntaram se ele gostaria de
um banho. Como também fazia algum tempo que ele não se lavava, aceitou imediatamente
a proposta e, auxiliado pelas enfermeiras, acabou tomando banho no pequeno box.
Seu companheiro de quarto estava de alta e lhe ofereceu desodorante e um livro
e, como iria ficar sozinho no leito, um livro seria benvindo. O título na capa era algo como De Mendigo a
Milionário, porém é difícil confirmar, já faz muitos anos.
Pois bem, após o
café o paciente começou a ler o livro. Enquanto ainda lia, foi comunicado de
que a psicóloga o visitaria, a fim de pegar alguns dados. Como não tinha
família ou moradia fixa, ele acabou relaxando e voltando à leitura. Exatamente as
09h30min, a psicóloga entrou em seu quarto e ele tão concentrado no livro nem a
percebeu. Foi quando ouviu uma voz feminina, ao longe dizendo “moço, moço”. Ele
tirou os olhos das páginas e viu a sua frente uma mulher alta, linda e com voz
meiga e suava, lhe desejando um cordial “bom dia”.
Ao ser questionado pela psicóloga sobre onde
morava..."Este é um fragmento do livro Diário de bordo da Kombi, que será lançado em breve.
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