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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Um samba enredo aqui, um revolver apontado ali


"...Na União da Ilha, como membro fundador, fui convidado a ser candidato a presidente. A escola estava quebrada, sem diretoria, sem sede, sem instrumentos e sem batuqueiros. Na campanha à presidência da Escola, eu prometia dar jeito em tudo, instrumentos, fantasias, apitador, sede para ensaios; também tive que concorrer contra três chapas e, em um acordo de última hora com os integrantes da velha-guarda de outros carnavais da Ilha, surpreendi e fui eleito por uma esmagadora maioria. Na minha gestão, inaugurei um novo método de administração, parti para parcerias, o que na época era tido como temerário, e embarquei para o Rio de Janeiro em busca de apoio e patrocínio.
No Rio, entrei em contato com a Diretoria da legítima União da Ilha e fui ajudado pelo carnavalesco da escola que me cedeu quatro caixas de papelão (usadas para embalar geladeiras) cheias de fantasias usadas que, para nós, se tornaram o luxo. Durante uma reunião da associação dos moradores, conheci um deputado federal que, em pouca conversa, se colocou à disposição da escola e, precisamente, dos instrumentos.
A diretoria ficou empolgada e eu, aproveitando esse momento, fiz uma reunião com os candidatos derrotados, aos quais pedi apoio. Eles abraçaram a nossa causa, que era surpreender a cidade com o maior número de integrantes, maior bateria, melhor rainha... Tudo teria que ser melhor. Na verdade, eu estava vendendo ilusões para aquelas pessoas e também tinha medo de não dar certo.
Com minha exposição, a Chamber Junior International, me convocou para ser um dos fundadores da Câmara Junior, que era uma entidade internacional que dava cursos de normas parlamentares para as novas lideranças; com o meu envolvimento nessas frentes, logo me filiaram a um partido político (meu ego estava a mil), o PL.
Com a chegada dos instrumentos, nós começamos a dar início aos ensaios em um campo à beira mar, onde havia a sede de um clube de futebol que nos foi concedido em regime de comodato. Os ensaios começaram a pegar fogo, e a imprensa começou a participar. Logo fomos parar no noticiário regional através de uma afiliada da Rede Globo. Em um animado ensaio, fomos contatados pelo presidente da federação das escolas de samba do estado, pedindo que três ou quatro carros alegóricos fossem reservados para a tal federação. Inclusive, quem viria desfilar era a Miss Paraná, outras beldades e uns travestis famosos da capital e, eles pagariam a conta. Nada mal!
Os moradores da Ilha dos Valadares tinham que fazer a travessia de barco para a cidade. Eu via o sofrimento dos trabalhadores que eram forçados a fazer essa travessia de lancha ou de bateira. Existia um antigo sonho de se construir uma ponte que ligaria a Ilha ao continente. Em um concurso de samba enredo, fui um dos autores da letra que versava sobre o tema, que dizia assim:

O sonho se tornou realidade:

O sonho se tornou realidade, será que agora eu serei feliz...
Será que os Valadares reinará num mar de rosas e felicidades...?
Se a vida será melhor com a ponte...? só o futuro dirá!
Pescador joga a rede no mar... é carnaval, vamos todos sambar!
E olha eu, olha eu aqui de novo, me uno ao povo no batuque da “União”
Será oh! Será! Que a liberdade acabará!
Borboleta, fauna e flora
Manguezais e riquezas mil!
Tudo é ecologia, é patrimônio do Brasil
Vamos lá minha gente... o sonho se tornou realidade...

Gravamos o samba enredo numa fita cassete e mandamos para as emissoras de rádio, que passaram a executar todas as letras de todas as escolas. Era um carnaval concorrido. A Prefeitura liberou um enorme galpão na cidade para a construção dos carros e das alegorias. Conseguimos aprontar doze carros em tempo recorde. A Escola cresceu por si própria. Em pouco tempo, tornou-se grande e eu era o presidente e era um louco. Não sabia que era doente alcoólico, mas, apesar de tudo, as coisas estavam dando certo.
Todas as noites, eu e a diretoria fazíamos um esquenta[1] na Rosa dos Ventos e, depois, seguíamos para o ensaio, eu, os seguranças e a “tropa de choque.” Atravessávamos a Ilha toda a pé, até chegar ao local e, quando chegávamos, o apitador parava o ensaio e anunciava a minha presença e dos meus convidados daquela noite. Com a minha chegada (eu me sentia muito orgulhoso e pegava na mão de quase todo mundo, conhecidos ou não, e pedia apoio) era providenciada a bebida da bateria. Muitas vezes, a bebida era patrocinada por mim e, outras vezes, pelos seguranças que, na verdade, eram estivadores e trabalhavam comigo, mas não ganhavam nada. Pelo contrario, investiam em mim, cuidavam da minha imagem. Eram camaradas das horas boas e ruins. Eles eram o meu staff.
No dia do ensaio geral dei uma entrevista pra tevê desafiando qualquer escola a apresentar um carnaval mais bonito que o nosso. Eu estava com bala na agulha[2] e provocando as outras escolas, porque entendia que carnaval era rivalidade. Usei o espaço que a mídia estava nos dando naquele momento único, em rede estadual, para dizer que a escola de samba estava vindo para a avenida para sangrar-se campeã.
E lá fomos para a avenida, no sábado à noite. Eu morava na Ilha, mas o desfile de Carnaval era no continente. De tão petulante que eu estava, resolvi alugar um enorme quarto de um hotel, bem perto da avenida, para ficar a sós com o meu “staff” e saber das últimas novidades de outras escolas, como que eles também queriam saber das nossas! Nossa escola foi a penúltima a entrar na avenida, onde fomos recebidos pelo Rei Momo que, num particular, me confidenciou que nossa escola era provavelmente a campeã, pois as outras estavam fraquinhas. Na verdade, ele estava me dando aquele último gás.
Com a forcinha do Rei Momo, a euforia tomou conta de mim. De tanta alegria, comecei a beber descontroladamente. Quando chegamos próximos ao palanque das autoridades, meus seguranças me passaram um lenço dobrado, com cocaína dentro. Eu fingia que ia assoar o nariz e cheirava o pó. Depois, enxugava o suor e devolvia o lenço para ser trocado por outro “preparado.”
Defronte ao palanque do prefeito, com a cara cheia de manguaça e com a cabeça trincada pelo pó, dei uma entrevista ao vivo,em rede estadual agradecendo a todos, que confiaram na minha venda de ilusões, porque a partir daí fui ter noção que o carnaval é uma indústria sem chaminé.
Minha mãe, de casa, me assistiu ao vivo pela rede de televisão estadual. Disse-me dias depois que eu estaria fazendo apologia ao Satanás (segundo ela). A Liga das escolas de samba nos entregou o regulamento. Entre as cláusulas, uma dizia que travesti não poderia sair na comissão de frente e, justamente, a maior escola infringira o regulamento. Como a nossa escola era a segunda maior, fui instigado pelos outros presidentes a entrar com uma representação contra essa escola e entrei...
No dia da apuração do resultado, o presidente dessa escola, estava na porta do ginásio me esperando, armado com um revólver calibre 32. Meus seguranças já estavam lá dentro me aguardando.Tinha ido sozinho comprar pipocas,na entrada,fui abordado pelo tal presidente que me disse: - Ou você tira essa representação contra a minha escola ou eu te mato.
           Adivinhem o que eu fiz?..." 

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terça-feira, 19 de julho de 2011

A Infância e o Primeiro Gole


"Lembro-me como se fosse hoje do dia 29 de julho de 1970, dia do meu aniversário...

"...Estava completando nove anos. O frio era cortante, as tábuas de bater roupas amanheceram iguais a blocos de gelo. Os campos estavam branquinhos devido à forte geada que assolava o estado naquela manhã cinzenta de inverno. O Brasil tinha conquistado a terceira copa do mundo e vivíamos uma enorme ressaca de orgulho nacional.
Morávamos em Londrina, norte do Paraná. A Londrina que lembro era a das charretes, dos homens que usavam chapéus Panamá, calças de linho e fumavam charutos cubanos. E muitas crianças usavam aquelas botinhas ortopédicas. Naquele dia, quando os galos começaram a cantar, meu querido avô acordou meu pai e juntos, começaram os preparativos para a festa do caçula da família do meu avô, um próspero latifundiário do café. O Brasil era o maior produtor mundial de café e Londrina era a capital brasileira desta produção. A fartura corria solta e qualquer data especial era motivo para festa. Escutei quando meu avô falou:
- Zé, temos que matar o Lolinho! Prepare o fogão à lenha.
Eu não acreditei. Lolinho era um porquinho de estimação que eu havia ganhado no meu último aniversário, e que tinha se tornado um robusto porco de raça landrace. Foi quando meu pai disse:
Sogrão, temos que levar o Paulinho para casa do compadre Jabur, senão vai ficar muito magoado. Ele é muito apegado ao bichinho.
Não me contive. Abri o berreiro. Acordei a todos e, principalmente, a minha querida avó materna, impedindo assim que o Lolinho fosse sacrificado em prol do meu aniversário. Mesmo assim, colocaram-me numa charrete e me levaram para casa do meu padrinho, que ficava no centro da cidade, na Rua Mato Grosso. Porém, antes de eu partir, ficou combinado que não iriam sacrificar o bichinho. Fui mais tranquilo. Passei o dia todo pensando na possibilidade de sacrificarem o Lolinho. À tardinha quando voltamos ao casarão, a festa estava acontecendo mesmo sem a minha presença e todos os meus parentes, sem exceção, e também os empregos estavam altos. Fui correndo até a pocilga conferir e vi que o meu porquinho estava vivinho da silva. A alegria voltou a estampar aquele rosto de menino que sofreu uma tarde inteira, antecipadamente, pensando na hipótese do coitadinho do porquinho ter ido para a fita.
Quando entrei no salão de festas, o meu tio caçula me ofereceu um copo de vinho. A princípio, relutei, mas ouvi vários conselhos do tipo:
- Bebe Paulinho, hoje é seu aniversário. Você é o dono da festa...
- Você não é homem? Então, para não decepcionar a todos, virei o copo de vinho de uma só vez, comprovando a minha masculinidade. Este foi o meu primeiro gole e meu primeiro porre, ainda criança – e não seria o último..."

Este é mais um fragmento da história de Paulo Roberto de Souza. Este e mais capítulos você encontra na obra intitulada De Mendigo a Milionário. Para comprar entre em contato pelo blog ou compre clicando no link ao lado no blog.

terça-feira, 21 de junho de 2011

De Mendigo a Milionário - Em São Paulo...



“... Assim nasceu o grupo Chic Carm Soul e participei de várias apresentações. Como não levava jeito para a dança, logo assumi como empresário do grupo. Como era legal. Tínhamos uma turma super unida. Além dos dançarinos, contávamos com um pessoal de respeito ao qual chamávamos, na intimidade, de Diretoria. Esse grupo era comandado pelo Edson Lobão e sua mulher karminha. O grupo de dança era chefiado por Carlinhos Brown, da Brasilândia, e o figurino a cargo de Paulo Roberto Guedes. A animação ficava por conta do Ivanildo e do Marcão. Eles não deixavam faltar uma bebidinha. Eu não sou negro. Na época, fazia permanente e a moda era calça boca-de-sino com sapato bico-fino de duas cores, fora os broches que se tornaram uma febre. Quando o grupo não estava se apresentando, nós assistíamos shows nacionais com Tony Tornado(sou fã dele até hoje), Gerson King Combo, Carlos Dafe, Jorge Bem, Banda Black Rio e outras atrações internacionais. Vi James Brown cantar, tocar e dançar o autêntico soul. Nunca esqueço da música Sex Machine, que começa assim: “Get up, get on up, get up, get on up, stay on the scene, like a sex machine”.
Também assisti outros shows, como The Jackson Five, Alice Cooper, Black Sabbath, e foi aí que tomei gosto pelo show business. Comecei a fazer amizades com o pessoal da onda black power, que tocava os salões mais quentes daqueles anos dourados, como o São Paulo Chic Show, o Blum, Furacão 2000 e o Zimbabwe. Eu tinha saído da joalheria e trabalhava num banco internacional como contínuo. Meu primo Ivanildo já era adulto e tinha carreira de motorista. Com o dinheiro da demissão da joalheria resolvi comprar um carro, um Chevrolet 58, para irmos aos bailes, shows e apresentações.
[...]
Quando tudo parecia estar se encaminhando bem em Sampa, chegou uma carta da minha mãe adotiva com umas fotos e reportagens de jornais de Paranaguá, falando sobre o incêndio no hotel...”

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Crédito Fotografia: Revista Manchete Retrato de São Paulo 1970, 1974 e 1975