terça-feira, 19 de julho de 2011

A Infância e o Primeiro Gole


"Lembro-me como se fosse hoje do dia 29 de julho de 1970, dia do meu aniversário...

"...Estava completando nove anos. O frio era cortante, as tábuas de bater roupas amanheceram iguais a blocos de gelo. Os campos estavam branquinhos devido à forte geada que assolava o estado naquela manhã cinzenta de inverno. O Brasil tinha conquistado a terceira copa do mundo e vivíamos uma enorme ressaca de orgulho nacional.
Morávamos em Londrina, norte do Paraná. A Londrina que lembro era a das charretes, dos homens que usavam chapéus Panamá, calças de linho e fumavam charutos cubanos. E muitas crianças usavam aquelas botinhas ortopédicas. Naquele dia, quando os galos começaram a cantar, meu querido avô acordou meu pai e juntos, começaram os preparativos para a festa do caçula da família do meu avô, um próspero latifundiário do café. O Brasil era o maior produtor mundial de café e Londrina era a capital brasileira desta produção. A fartura corria solta e qualquer data especial era motivo para festa. Escutei quando meu avô falou:
- Zé, temos que matar o Lolinho! Prepare o fogão à lenha.
Eu não acreditei. Lolinho era um porquinho de estimação que eu havia ganhado no meu último aniversário, e que tinha se tornado um robusto porco de raça landrace. Foi quando meu pai disse:
Sogrão, temos que levar o Paulinho para casa do compadre Jabur, senão vai ficar muito magoado. Ele é muito apegado ao bichinho.
Não me contive. Abri o berreiro. Acordei a todos e, principalmente, a minha querida avó materna, impedindo assim que o Lolinho fosse sacrificado em prol do meu aniversário. Mesmo assim, colocaram-me numa charrete e me levaram para casa do meu padrinho, que ficava no centro da cidade, na Rua Mato Grosso. Porém, antes de eu partir, ficou combinado que não iriam sacrificar o bichinho. Fui mais tranquilo. Passei o dia todo pensando na possibilidade de sacrificarem o Lolinho. À tardinha quando voltamos ao casarão, a festa estava acontecendo mesmo sem a minha presença e todos os meus parentes, sem exceção, e também os empregos estavam altos. Fui correndo até a pocilga conferir e vi que o meu porquinho estava vivinho da silva. A alegria voltou a estampar aquele rosto de menino que sofreu uma tarde inteira, antecipadamente, pensando na hipótese do coitadinho do porquinho ter ido para a fita.
Quando entrei no salão de festas, o meu tio caçula me ofereceu um copo de vinho. A princípio, relutei, mas ouvi vários conselhos do tipo:
- Bebe Paulinho, hoje é seu aniversário. Você é o dono da festa...
- Você não é homem? Então, para não decepcionar a todos, virei o copo de vinho de uma só vez, comprovando a minha masculinidade. Este foi o meu primeiro gole e meu primeiro porre, ainda criança – e não seria o último..."

Este é mais um fragmento da história de Paulo Roberto de Souza. Este e mais capítulos você encontra na obra intitulada De Mendigo a Milionário. Para comprar entre em contato pelo blog ou compre clicando no link ao lado no blog.

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